O trabalho vivo e seus desafios na assistência perinata
Psicodinâmica do Trabalho; Trabalho Vivo; Assistência Perinatal; Saúde Mental; Violência.
O presente trabalho pretende analisar, à luz da Psicodinâmica do Trabalho (PDT), o trabalho vivo na assistência perinatal, compreendido como o investimento subjetivo e o engajamento do corpo do trabalhador diante do hiato existente entre o trabalho prescrito e o trabalho real. A assistência perinatal, voltada ao cuidado durante o ciclo gravídico-puerperal e os primeiros anos de vida da criança, constitui um campo singular das práticas em saúde, no qual o nascimento, a parentalidade e a constituição dos vínculos primários convocam os profissionais a intensas mobilizações psíquicas, corporais, éticas e sociais. Nessa perspectiva, por meio da escuta clínica proposta pela Psicodinâmica do Trabalho, esta pesquisa investiga como as vivências do trabalho na assistência perinatal coloca os profissionais em contato permanente com as experiências do nascimento, da corporeidade, da constituição das primeiras relações de cuidado e das vulnerabilidades inerentes ao início da vida, produzindo repercussões significativas sobre sua economia psíquica. Busca-se compreender de que modo esse trabalho participa da transformação da identidade dos trabalhadores, mobilizando processos de cooperação, reconhecimento, criatividade e sublimação, bem como investigar em que condições a organização do trabalho pode produzir sofrimento ou, ao contrário, favorecer processos de emancipação, criação e fortalecimento da saúde mental. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter pesquisa-ação, desenvolvida mediante triangulação de procedimentos de produção de dados, envolvendo entrevistas histórico-clínicas, análise de diários de campo produzidos durante processos formativos sobre parentalidade e enquetes em Psicodinâmica do Trabalho. A análise articula as dimensões subjetivas, sociais, institucionais e políticas do trabalho em saúde, considerando os atravessamentos de gênero, raça, classe social e violência que configuram o trabalho vivo na assistência perinatal. A tese organiza-se em quatro eixos centrais de investigação: I) a transformação de si produzida pelo trabalho na perinatalidade; II) os entrelaçamentos entre história de vida, maternidade, parentalidade e exercício profissional; III) as dimensões individuais e coletivas do trabalho vivo, envolvendo autoridade, reconhecimento, cooperação, conflitos e violência; e IV) os processos de inventividade, sublimação e elaboração do sofrimento como possibilidades de fortalecimento da saúde mental dos trabalhadores. Ao privilegiar a experiência subjetiva do trabalho, esta pesquisa pretende contribuir para a compreensão das formas pelas quais os conflitos psíquicos são continuamente atualizados nas relações estabelecidas entre profissionais da assistência perinatal, gestantes, puérperas, bebês e suas famílias. Busca, ainda, ampliar a compreensão do potencial transformador do trabalho vivo como espaço de produção de subjetividade, de reconstrução identitária e de emancipação. Espera-se que essas análises contribuam para a construção de dispositivos coletivos de escuta e reflexão, bem como para o aprimoramento das políticas de formação permanente em saúde e para o fortalecimento de práticas de cuidado comprometidas com a saúde mental dos trabalhadores e com a transformação social.