Trauma sexual na infância em mulheres adultas: Clínica da reanimação psíquica
Trauma; infância; violência sexual; Psicanálise; Eu-pele; reanimação psíquica; enquadre interno; simbolização.
O objetivo deste trabalho é investigar como o encontro analítico pode oferecer condições de sustentação, ligação e simbolização diante de configurações traumáticas nas quais se encontram comprometidas a apropriação da própria experiência e a vitalidade psíquica. Sustenta-se a hipótese de que, diante de estados de passivação e de quase-morte psíquica, o enquadre interno do analista, sustentado por uma presença viva, sensível e implicada, pode exercer a função de uma borda vitalizante e de um envelope corporal simbólico provisório, favorecendo a retomada de partes da vida psíquica, a reconstrução de possibilidades de simbolização e o estabelecimento de laços de vida. É nesse horizonte que se propõe a formulação clínico-conceitual de uma clínica da reanimação psíquica. Trata-se de uma pesquisa em Psicanálise construída a partir da experiência clínica e de seu trabalho de elaboração a posteriori. O percurso metodológico compreende o retorno aos acontecimentos clínicos, aos registros, às cenas e aos afetos que insistiram para além das sessões, submetendo-os à leitura-escuta, à construção de enigmas, à interlocução teórica e à construção do pensamento clínico. O campo de investigação é constituído por três mulheres adultas, denominadas Maria, Branca e Amanda, que sofreram violência sexual na infância e cujas diferentes formas de organização psíquica permitem interrogar modalidades de passivação, mortificação, ativação defensiva e estados-limite. A discussão articula os conceitos de trauma, desmentido, Eu-pele simbolização, passivação, enquadre interno e presença do analista. As construções clínicas vêm indicando que, em determinadas configurações traumáticas, o trabalho analítico não se restringe à interpretação de conteúdos representados, exigindo do analista condições de sustentação para experiências que ainda não puderam ser suficientemente ligadas, simbolizadas ou apropriadas. A clínica da reanimação psíquica não é proposta como uma nova técnica ou protocolo para o tratamento do trauma, mas como uma formulação acerca da posição e da função do analista diante de experiências nas quais simbolização, continuidade e vitalidade psíquica encontram-se profundamente comprometidas. Reanimar, nesse sentido, não significa introduzir vida no sujeito a partir de fora, mas favorecer, no encontro analítico, condições para que ele possa retomar e apropriar-se dos movimentos de sua própria vida psíquica.