“É PRECISO CONHECER A FOME PARA DESCREVÊ-LA”: TRÂNSITOS INTERSECCIONAIS EM PEDAÇOS DA FOME, DE CAROLINA MARIA DE JESUS
Carolina Maria de Jesus. Pedaços da Fome. Interseccionalidade. Poética da fome. Literatura Afro-brasileira.
Esta dissertação propõe compreender os trânsitos interseccionais e deslocamentos da fome no romance Pedaços da Fome, de 1963, de Carolina Maria de Jesus, sob a perspectiva do feminismo negro-interseccional. O estudo investiga como a autora utiliza a ficção como ferramenta de denúncia social, operando uma complexa manobra estética ao transpor as vivências da miséria para uma protagonista branca e inicialmente privilegiada, Maria Clara. A fundamentação teórico-metodológica ancora-se nos conceitos de interseccionalidade estabelecendo um diálogo com pensadoras como Beatriz Nascimento, Carla Akotirene, Kimberlé Crenshaw, Lélia Gonzalez, Audre Lorde, Grada Kilomba e bell hooks. A pesquisa identifica uma lacuna na fortuna crítica caroliniana, majoritariamente centrada no caráter testemunhal de Quarto de Despejo, e busca validar Carolina como uma romancista detentora de um projeto literário deliberado. A análise estrutural da obra revela a "Tríade das Intersecções Estruturais" — composta pelo Patriarcado, pela Marginalidade e pela Branquitude — e discute, a partir de Gayatri Spivak, a possibilidade de fala do sujeito subalterno mediada pela urgência da fome. Conclui-se que o silenciamento editorial de Pedaços da Fome reflete o pacto da branquitude, que limita a autoria negra ao registro da miséria. O trabalho reforça a urgência de reposicionar Carolina Maria de Jesus no campo literário brasileiro, reconhecendo sua escrevivência ficcional como uma sofisticada engenharia de resistência e denúncia das desigualdades estruturais. Palavras- chave: Carolina Maria de Jesus. Pedaços da Fome. Interseccionalidade. Poética da fome. Literatura Afro-brasileira.