Ainda Clarice: quando a infância fala a sua linguagem
Clarice Lispector; literatura infantojuvenil; continuidade estética; linguagem literária; infância
Esta dissertação analisa a produção infantojuvenil de Clarice Lispector a partir da hipótese de que tais obras não constituem um desvio marginal ou secundário em relação à sua escrita voltada ao público adulto, mas integram, de modo pleno, o projeto estético da autora. O corpus é composto por O mistério do coelho pensante (1999c), A mulher que matou os peixes (1999a), A vida íntima de Laura (1999b) e Quase de verdade (1999d), narrativas que evidenciam a permanência de procedimentos formais, filosóficos e éticos característicos da escritura clariceana. Sustenta-se que esses textos operam como transposições do núcleo estético da obra adulta, reelaborado em registro lúdico e dialógico, sem perda de densidade conceitual. A pesquisa adota abordagem bibliográfica e analítica, dialogando com a crítica clariceana consolidada, especialmente Benedito Nunes, Olga de Sá e Nádia Battella Gotlib, a fim de identificar as permanências estéticas que atravessam diferentes gêneros e destinatários. Inicialmente, o trabalho revisita a recepção crítica da obra de Clarice Lispector no cenário literário brasileiro, destacando as oscilações iniciais e a posterior consolidação de sua escrita como projeto singular. Em seguida, sistematizam-se os fundamentos estéticos da obra adulta, como metalinguagem, fragmentação, lirismo, linguagem figurada, tempo existencial e epifania. A análise das narrativas infantis demonstra que tais elementos reaparecem de forma consistente, organizando uma literatura que recusa a pedagogização simplificadora e convoca a criança como interlocutora ética e estética. A infância é compreendida não como estágio deficitário do pensamento, mas como espaço ontológico privilegiado de experiência, no qual corpo, linguagem e percepção se articulam intensamente. Conclui-se que a literatura infantojuvenil de Clarice Lispector constitui uma via fundamental de manifestação de sua poética, reafirmando a continuidade estética entre suas diferentes frentes de produção e ampliando o campo crítico dedicado à autora.