Ética na legitimação da literatura afro-brasileira: resistência e escrevivência em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.
Ética, literatura afro-brasileira, violência total; escrevivência; resistência.
Um defeito de cor (2008), de Ana Maria Gonçalves, é um romance escrito a partir de uma longa pesquisa da autora em arquivos de relatos, historiográficos e literatários, onde registrase a História oficial como pano de fundo. A história da protagonista e narradora Kehinde 2 começa no século XIX no antigo Daomé, atualmente Benin, com a morte da mãe e do irmão Kokumo por guerreiros nativos. Muda-se com a avó para Uidá, onde é capturada por comerciantes de escravos juntamente com a irmã gêmea, Taiwo e a avó. È levada para o Brasil, sobrevivendo à Passagem do meio. Ao chegar na Bahia, passa a ser acompanhante da filha de seu senhor. Aprende a ler e a escrever, construíndo sua própria escrivivência. Conecta-se com a ideologia dos negros mulçumanos, os quais não concordavam com o controle dos escravizados e participa da revolta dos malês em 1835. Luta contra a violência total desses dominadores. Depois disso, torna-se liberta, emancipa-se economicamente e volta para África, tornando-se uma construtora de casas brasileiras. Assim, esta tese discutirá, de forma ética, a partir da perspectiva conceitual de Emmanuel Lévinas, a legitimação da escrita afro-brasileira, a qual representa uma importante contribuição para a literatura brasileira, assim como outras autoras como Maria Firmina (século XIX) dos Reis, Carolina Maria de Jesus (seculo XX) e Conceição Evaristo (séculos XX/XXI). Esta pesquisa mostra também a denúncia da violência total sofrida pelo povo negro, a resistência necessária para sobreviver e a história ancestral dos escravizados, por meio da escrivência, uma escrita acerca das vivências e experiências que leva à valorização da identidade e cultura africanas.