Annie Ernaux: o acontecimento e a política na literatura
Aborto. Acontecimento. Classe. Fotografia. Política. Vergonha. Transgressão. Annie Ernaux.
A partir da análise de O Acontecimento, escrito por Annie Ernaux em 2000, este trabalho pretende mostrar como a autora usa a narrativa de um aborto clandestino realizado por ela entre 1963 e 1964 para jogar luz sobre um episódio de violência. Violência pela qual passavam milhares de mulheres na França da época e ainda passam outras, em países nos quais o aborto ainda é tratado como crime. Mostro isso a partir da análise do próprio projeto literário de Ernaux que, mesmo admitindo poder ser traída pela memória e reconhecendo as barreiras da linguagem, o que a impossibilitaria de contar os fatos exatamente como ocorreram, na opacidade descrita por Butller (2015, p. 40-41), promete uma escrita plate — plana, neutra (Ernaux, 2021, p. 14). Analiso ainda a trajetória da escritora como trânsfuga de classe, na definição de Pierre Bordieu (Bordieu, 2006, p. 316), como determinante para essa literatura autossociobiográfica que, na definição de Ernaux, é capaz de, ao revelar episódios violentos, como o ocorrido sobre seu corpo, e também sentimentos como a vergonha, transformar o testemunho em mecanismo capaz de fazer a escritora “vingar a sua raça” (Ernaux, 2022d). “Quando o indizível vem à luz, ele é político”, acredita Ernaux (Ernaux, 2023, p. 19). Analiso ainda a importância das imagens na literatura ernausiana, tanto para ajudá-la a recuperar a memória para a escrita quanto para retratar a violência, por vezes recorrendo a símbolos religiosos para associar essa violência à noção de sacrifício.