A ESCUTA GEOPOÉTICA NO CERRADO KALUNGA: a rexistência afrodiaspórica entre vãos e cantigas.
geopoesia; quilombo Kalunga; performance cultural; escuta geopoética.
Esta dissertação resulta de uma pesquisa de campo voltada à análise literária das cantigas do quilombo Kalunga sob a perspectiva da geopoesia enquanto teoria do literário. Partindo da compreensão de que as cantigas constituem expressões das performances culturais do povo Kalunga, investigamos suas práticas corporais e vocais nos corredores da geopoesia – nas divisas entre Goiás e Tocantins, com pesquisa mais aprofundada na comunidade do Vão de Almas. Amparados na concepção de literatura proposta por Paul Zumthor – entendida como arte da linguagem humana fundada nas estruturas antropológicas mais profundas – consideramos que voz, corpo, espaço e tempo integram o fenômeno poético, em convergência profunda com a performance, poesia pensada enquanto ritual da linguagem. Assumindo a postura do etnoflâneur e suas ferramentas analíticas (Silva Júnior, 2021), analisamos os versos Kalunga em três vertentes de cantigas de batuque: sussa, curraleira e alvorada. A pesquisa fundamenta-se metodologicamente na crítica literária de Antônio Candido (1986), na correlação entre geografia cultural e geopoesia desenvolvida na tese de Elizeth da Costa Alves (2020) e nas contribuições do conceito de vivebilidade de Maria Helena Serafim (2023). Com base nesses referenciais, desenvolvemos a escuta geopoética como método de análise literária suplementar, que interpreta as camadas textuais dos versos a partir daquilo que dizem, pensam e imaginam os atores sociais da comunidade – sujeitos que vivem a diáspora quilombola na voz e no corpo. A escuta geopoética integra as falas dos interlocutores à leitura literária das cantigas, investigando-as pela raizama de sua arte palavral. Buscamos compreender o que dizem, reivindicam, ritualizam e cantam as vozes quilombolas na confluência diaspórica, concebendo o bioma Cerrado como território de rexistência afrodiaspórica e vivebilidade do povo Kalunga.