“Fiquei só com os pretos”: A personagem quilombola no romance brasileiro (Dalcídio Jurandir e Josué Montello)
Dalcídio Jurandir; Josué Montello; Marajó; Noite sobre Alcântara; Formação do romance brasileiro; Personagem quilombola; Quilombo e territorialidade.
O presente estudo promove uma análise comparativa entre os romances Marajó (1947), de Dalcídio Jurandir, e Noite sobre Alcântara (1978), de Josué Montello, considerando como o romance brasileiro, desde a sua formação, incumbiu-se de uma nacionalidade estético-social, cujos tipos sociais e seus contextos são aqui examinados à luz da atuação do sujeito histórico quilombola e o resguardo do seu território. Marajó configura-se como a interpretação da perpetuação do espírito colonial, em que as diversas violências praticadas são a expressão da naturalidade torpe dos mandatários da terra, num Brasil pós-abolição, no qual o negro ainda vivia de favor, pedindo bênção ao seu algoz. No território ficcional onde a miséria aflora, as relações entre as personagens ganham complexidade narrativa quando os flagelos impostos começam a ser percebidos pelos negros, que têm como único legado o infortúnio dos filhos. Em Noite sobre Alcântara, verifica-se a interpretação de um período de transição no chão nacional, do Império à República, e dos desdobramentos da decadência aristocrática mantida pelo opróbrio da mão de obra escrava. A relação de interdependência dialeticizada entre negro e branco – durante e após a abolição – e a voz narrativa relatando o abandono do território decadente denotam o eixo do romance. Essa relegação do território por parte dos nobres falidos fez de Alcântara o maior território quilombola do Brasil até agora. Embora escritas em momentos e cenários diferentes, as obras apresentam um notável diálogo entre si e com a realidade enfrentada por esse grupo social subalternizado, chamado quilombola, que, pelos dados oficiais, teve suas condições de vida pouco alteradas depois da abolição.