CINEMA LITERÁRIO E TRADUÇÃO COLETIVA EM LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA (LIBRAS): CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA E CULTURA SURDA.
Cinema literário; Tradução coletiva; Língua de Sinais Brasileira (Libras); Cultura surda; Crítica cinematográfica;
Este trabalho investiga as interseções entre cinema, literatura e Língua de Sinais Brasileira (Libras), a partir dos conceitos de cinema literário e tradução coletiva, compreendidos como campos de produção estética, crítica e cultural. Parte-se do pressuposto de que o cinema, enquanto linguagem audiovisual complexa, constitui-se como forma de escrita visual e dialógica, cuja construção de sentido resulta da articulação entre imagem, corpo, narrativa e recepção (Eisenstein, 2002; Xavier, 2005). Nesse contexto, a teoria do cinema literário, desenvolvida por Silva Junior e Gandara (2013; 2015; 2018), permite compreender o filme como espaço polifônico, no qual diferentes linguagens e vozes se entrecruzam, promovendo um diálogo contínuo entre literatura, imagem e cultura. A pesquisa propõe uma ampliação desse campo teórico ao incorporar a Libras como linguagem estética e epistemológica, deslocando a compreensão tradicional do gesto no cinema. Diferentemente da mímica e do gesto expressivo –historicamente associados ao cinema silencioso –, a língua de sinais constitui um sistema linguístico completo, dotado de gramática própria, capaz de produzir abstração, argumentação e narrativa (Gesser, 2009; Klima; Bellugi, 1979). Assim, quando inserida no cinema, a Libras não atua como recurso complementar, mas como linguagem plena que transforma o corpo em escrita visual e reorganiza a estrutura narrativa e estética do filme. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa adota abordagem qualitativa, articulando revisão teórica, análise fílmica e estudo de práticas audiovisuais em Libras. O corpus inclui filmes que tematizam a surdez e a língua de sinais, bem como produções críticas e ensaísticas desenvolvidas em contexto acadêmico. A análise fundamenta-se em referenciais da teoria do cinema (Eisenstein, 2002; Andrew, 2002), da crítica cinematográfica (Bernardet, 2018; Stam, 2006), da filosofia da linguagem (Bakhtin, 2018; Benjamin, 2019) e dos estudos surdos e da literatura em língua de sinais (Karnopp; Klein; LunardiLazzarin, 2011; Sutton-Spence, 2021). A noção de tradução coletiva, central nesta investigação, é compreendida como processo intersemiótico e colaborativo que desloca a ideia de adaptação como fidelidade, propondo o cinema como prática de reescrita e recriação (Stam, 2006; Silva Júnior; Gandara, 2015). Nesse sentido, o filme emerge como resultado de múltiplas vozes — roteiristas, diretores, atores, técnicos e espectadores — configurando-se como produção polifônica e aberta. Ao ser articulada à Libras, a tradução coletiva amplia suas possibilidades, incorporando a visualidade gestual como forma de autoria e crítica, especialmente por meio da produção de análises cinematográficas sinalizadas. Como contribuição teórica, esta pesquisa propõe compreender a língua de sinais não como continuidade do gesto cinematográfico, mas como ruptura epistemológica que transforma o corpo em linguagem plena, deslocando o cinema de um regime expressivo para um regime linguístico visual. Desse modo, o cinema literário, em diálogo com a tradução coletiva e a cultura surda, constituise como campo privilegiado para a produção de conhecimento, acessibilidade cultural e inovação estética, evidenciando novas formas de leitura, escrita e crítica no audiovisual contemporâneo.