Arquipélago trans: felicidade trans na literatura brasileira contemporânea.
Literatura trans; autopublicação; felicidade trans; arquipélago trans; literatura brasileira contemporânea.
Esta tese investiga a construção da felicidade trans na literatura de autopublicação brasileira contemporânea, propondo o conceito de arquipélago trans como chave de leitura para uma produção que se organiza fora dos circuitos editoriais tradicionais. O estudo articula, como base teórica, a crítica à colonialidade do poder (Quijano), a desconstrução das categorias biologizantes de gênero (Oyěwùmí; Butler; Preciado) e a noção de glitch como potência de subversão das normas cisheteronormativas (Russell), deslocando o foco analítico do corpo trans enquanto objeto de discurso médico-jurídico para o corpo trans enquanto sujeito de enunciação literária. A pesquisa recupera ainda o conceito de felicidade trans (trans joy), cunhado por Westbrook e shuster, e o relê à luz da noção spinozana de afecção e conatus, entendendo a felicidade não como estado contingente, mas como processo ativo de aumento da potência de existir: um deslocamento epistemológico que retira a narrativa trans do campo exclusivo da falta, do trauma e da morte anunciada. Estruturada em três atos, a tese demonstra, primeiramente, a recorrência de um "ciclo da vida trans" (infância conturbada, ruptura familiar, deslocamento geográfico, morte prematura) na literatura brasileira considerada canônica e mesmo em obras contemporâneas assinadas por autores cisgêneros, evidenciando a persistência de estereótipos patologizantes. Em seguida, propõe o conceito de arquipélago trans, apoiado no pensamento relacional de Glissant, na crítica pós-colonial de Hau'ofa e no modelo do meta-arquipélago de Benítez-Rojo, para descrever a multiplicidade não hierárquica de experiências trans e travestis que emergem nos espaços digitais de autopublicação, compreendidos como ilhas em relação, e não em isolamento. Por fim, o terceiro ato aplica esse arcabouço à análise de cinco obras de autoria trans e travesti publicadas via Amazon: A gravidade de Júpiter (Ariel F. Hitz), Que a melhor mordida vença (Rina Rodriguez), a duologia Só uma rapidinha (Koda G.) e Doutrinando um Bolsominion (Blame P.T.), evidenciando modos distintos de narrar a experiência trans a partir da agência, do prazer e do humor, e não exclusivamente da violência. Conclui-se que a autopublicação digital configura-se como espaço político, afetivo e estético de emancipação, no qual a autoria trans reconfigura o campo literário brasileiro ao inscrever a felicidade e não apenas a sobrevivência como horizonte narrativo legítimo.