DINÂMICA DO MERCÚRIO EM SEDIMENTOS DE ÁGUA DOCE NO BRASIL: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA E ESTUDO DE CASO NO LAGO AMAZÔNICO PURUZINHO
Geoquímica de sedimentos; Matéria orgânica; Metanogênese; Krigagem; Conectividade hidrológica
Lagos de planície de inundação desempenham um papel fundamental na retenção, redistribuição e transformação química do mercúrio (Hg) em sistemas aquáticos amazônicos, contudo, os processos que controlam sua variabilidade espacial em escala local permanecem pouco compreendidos. Neste estudo, investigamos os controles geoquímicos na distribuição de Hg em sedimentos superficiais do Lago Puruzinho, um lago de planície de inundação de águas negras hidrologicamente conectado ao Rio Madeira, na Amazônia Ocidental. Mercúrio total, cromo (Cr), cobre (Cu), ferro (Fe), manganês (Mn), chumbo (Pb), zinco (Zn), carbono orgânico total (COT) e metano (CH4) foram analisados em 23 amostras de sedimentos de fundo coletadas ao longo de um transecto longitudinal. Estatísticas multivariadas, modelagem geoestatística e análises de congruência espacial foram aplicadas para identificar os principais fatores determinantes da distribuição de Hg. A análise de agrupamento hierárquico identificou um grupo distinto composto por Hg, COT e CH4, indicando uma forte ligação biogeoquímica. Em contraste, Fe, Mn, Cr e Cu formaram um grupo separado associado a fases minerais, enquanto Pb e Zn exibiram comportamento independente. A krigagem ordinária revelou que Hg, COT e CH4 compartilham um padrão espacial coerente, com valores elevados nos setores centrais de baixa energia do lago. A congruência espacial pixel a pixel mostrou alta concordância entre Hg e COT (72%) e concordância quase completa entre Hg e CH4 (92%), destacando sedimentos redutores ricos em matéria orgânica como zonas preferenciais para o acúmulo de Hg. Por outro lado, as distribuições espaciais de Fe, Mn, Cr, Cu e Zn refletem principalmente a conectividade hidrológica e as entradas laterais de sedimentos suspensos ricos em minerais em zonas proximais. No geral, esses resultados ressaltam o papel dominante do acúmulo de matéria orgânica e dos processos diagenéticos iniciais na regulação do ciclo do Hg em lagos de várzea de água negra da Amazônia e identificam o metano sedimentar como um indicador eficaz para delinear pontos críticos biogeoquímicos de retenção de Hg.