Percepções de homens cisgêneros heterossexuais sobre a violência por parceiro íntimo contra mulheres
homens; violência por parceiro íntimo contra mulheres; masculinidades; marcadores sociais, socialização masculina
A violência por parceiro íntimo (VPI) é uma violação de direitos humanos ancorada em assimetrias de poder. Embora investigada sob a ótica das vítimas e de homens autores de violência (HAV), persiste uma lacuna de estudos centrados na subjetividade, nos discursos e nas práticas do homem comum da população geral. O presente estudo objetivou analisar adesão a papéis de gênero, atitudes frente às políticas públicas e preditores da perpetração de violência em homens cisgêneros e heterossexuais, analisando o impacto transversal de marcadores sociodemográficos. Trata-se de pesquisa quantitativa, transversal e exploratória, com amostra de 351 homens brasileiros da população geral recrutados em ambiente virtual. Os dados foram analisados via Análise Fatorial Exploratória (AFE), Teoria de Resposta ao Item (TRI), testes inferenciais e Regressão Logística Binomial Hierárquica. Os resultados evidenciaram uma profunda clivagem entre autoimagem e conduta: embora 47,0% da amostra tenha admitido a prática de atos violentos (predominantemente psicológicos, 37,6%), apenas 13,1% identificam-se como agressores. A análise demonstrou que capital cultural e escolaridade não inibem agressão, evidenciando a transversalidade do machismo. Ademais, a matriz religiosa cristã associou-se a maior conservadorismo, resistência à Lei Maria da Penha e menor letramento racial (p< 0,001). O modelo preditivo multivariado refutou a primazia do ciclo intergeracional: o histórico intrafamiliar perdeu significância estatística frente à legitimação entre pares. Homens expostos à VPI em suas redes de amigos apresentaram 123,9% mais chances (OR=2.24) de cometerem agressões. Conclui-se que o discurso igualitário funciona como um verniz social, enquanto a cumplicidade na “casa dos homens” legitima a prática no cotidiano, exigindo intervenções que desconstruam a invisibilidade da violência psicológica e a psiquiatrização do autor de violência.