VIOLÊNCIA DIGITAL DE GÊNERO NO DISCORD: NARRATIVAS MISÓGINAS E DINÂMICAS SOCIOTÉCNICAS EM SERVIDORES DE JOGOS ONLINE
Violência Digital de Gênero; Direitos Humanos das Mulheres; Misoginia; Discord; Pseudonimato Predatório.
A violência digital de gênero não se origina nos ambientes digitais, mas reconfigura e prolonga relações históricas de poder e subordinação, encontrando nas tecnologias novas condições de circulação, visibilidade, interação e alcance. É nesse processo de reconfiguração das desigualdades de gênero que se situa o problema desta pesquisa, que investiga, sob a perspectiva dos direitos humanos, as narrativas misóginas que circulam em servidores de jogos online no Discord e as relações pelas quais seus sentidos são produzidos, contestados ou incorporados às práticas cotidianas dessas comunidades. Entre as diferentes manifestações da misoginia, o recorte analítico privilegia repertórios também encontrados na machosfera, especialmente a vitimização masculina, a deslegitimação do feminismo e a construção das mulheres como adversárias, sem presumir pertencimento dos participantes ou dos servidores a esse universo. Parte-se da hipótese de que essas narrativas podem adquirir adesão e legitimidade por meio das associações constituídas entre participantes, posições hierárquicas, normas comunitárias, práticas de moderação e afordâncias da plataforma. Canais, cargos, permissões, mecanismos de reação, modalidades de comunicação e pseudonimato são examinados a partir dos efeitos produzidos nas situações observadas, afastando tanto o determinismo tecnológico quanto a compreensão do Discord como suporte neutro. A categoria de facilitador social-tecnológico permite examinar a articulação entre recursos técnicos e práticas sociais, enquanto a noção de pseudonimato predatório designa o emprego estratégico da dissociação entre identidade civil e identidade digital em práticas de aproximação, manipulação, exposição, perseguição ou evasão da responsabilização envolvendo mulheres e meninas. Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem qualitativa, de caráter exploratório e orientação interpretativa, articulando investigação bibliográfica e histórico-interpretativa à etnografia digital de orientação netnográfica. Em diálogo com a Teoria Ator-Rede de Bruno Latour, a observação é orientada pelo rastreamento das associações entre entidades humanas e não humanas, sem definir previamente quais elementos atuam como mediadores. Busca-se, assim, produzir conhecimento situado sobre as condições em que repertórios misóginos podem adquirir legitimidade, integrar práticas ordinárias ou encontrar resistência, contribuindo para a compreensão da violência digital de gênero como questão de direitos humanos.