“Pra mim poesia é luta”: Carlos de Assumpção e seu testemunho de afeto e resistência negra.
Carlos de Assumpção; Poesia declamada nega; Protesto; Ancestralidade; Emancipação econômica.
O poeta Carlos de Assumpção nasceu em 1927, na cidade de Tietê, interior de São Paulo. Consagrou-se como o “Poeta do Protesto” vinte anos depois e conviveu com escritores, artistas e ativistas sociais, tendo participado da formação de entidades associativistas e se consolidado como uma das vozes mais influentes da poesia negra brasileira declamada. A presente pesquisa consistiu em compreender de que maneira a trajetória, os testemunhos e a obra de Carlos de Assumpção possibilitam interpretar formas de resistência negra construídas a partir do século XX e, ao mesmo tempo, recuperar experiências coletivas voltadas à emancipação social e econômica da população negra. A pesquisa buscou se situar não apenas na conversa com a palavra poética de Carlos de Assumpção, mas também no acompanhamento dos movimentos pelos quais essa palavra, constituída desde a experiência negra, circula, mobiliza relações, participa de redes coletivas e encontra expressão em iniciativas voltadas à construção concreta de possibilidades de vida, autonomia e direitos. Com base na reconstituição de aspectos da trajetória biográfica e intelectual de Carlos de Assumpção e da relação entre ancestralidade, oralidade e poética em sua obra, foram identificadas redes de sociabilidade e atuação política do movimento social negro paulista. Entre os encontros que teve, Carlos de Assumpção conheceu Jorge Prado Teixeira, um jovem intelectual negro que colocava a questão econômica no centro do debate racial e que idealizou um Banco Negro na cidade de São Paulo, uma Associação de Crédito Popular voltada à população negra. As perspectivas teórico-metodológica “desde dentro para desde fora” e do “direito achado na rua” possibilitaram a escrita de uma tese que mobiliza poesia e afeto como constituintes da produção de conhecimento ancestral como também prática acadêmica. A partir de uma epistemologia originada entre negros, em que o conhecimento não é construído apenas pela leitura e pela escrita formal, mas que é ritmado, falado, dançado, esta tese toma de empréstimo a forma do Batuque de Umbigada, festa cultural negra do interor paulista, para responder ao tambor de Carlos de Assumpção com uma dança que conversa com as estratégias de fuga coletiva e busca por formar espaços de criação intelectual e política negra no centenário do poeta.