DISCURSO CANIBAL, REFLUXO COLONIAL: Montaigne e a infiltração do ameríndio no arquivo filosófico do Ocidente
Revolução sociológica; Refluxo colonial; Antropofagia; Montaigne; Léry; Thevet; Canibal.
A presente dissertação tem por intuito explorar um dos percursos que a representação do indígena americano realizou no imaginário intelectual europeu do século XVI, e que culminou nos ensaios americanos de Montaigne: Dos Canibais e Sobre os coches. Esse caminho parte das representações do indígena antropófago brasileiro como sinédoque da compreensão do ameríndio em geral, atravessando o imaginário bestial e desumanizador que se construiu inicialmente a respeito dos povos americanos e passando pelos relatos de viagem de André Thevet e Jean de Léry, que realizam uma guinada na interpretação das sociedades ameríndias e da antropofagia ritual. Nosso percurso se encerra com a investigação a respeito da operação realizada por Montaigne de transformação da ética indígena da palavra em um discurso filosófico, que eleva ao máximo simbolismo a antropofagia guerreira e converte o canibal que come num filósofo que discursa, inserindo-o no arquivo filosófico do Ocidente. Essa conversão é sintoma do que chamamos de refluxo colonial, em que o ameríndio predado pela colonização retorna enquanto uma indigestão no sistema intelectual europeu, tendo em vista que o discurso filosófico atribuído a ele sempre é imbuído de uma crítica ferrenha às instituições ocidentais. O ameríndio torna-se, através dessa revolução sociológica de Montaigne, um espelho que faz o europeu estranhar suas próprias convenções, instituições e costumes, um orador que instiga filosoficamente o Ocidente a espantar-se de si mesmo.