A EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS EVOLUCIONISTAS: MATEMATIZAÇÃO E CAUSALIDADE
Evolucionismo. causalidade. Síntese Evolutiva Moderna. matematização. modelos mecanicistas.
Todos os fenômenos do mundo material possuem causas. O entendimento da causa, do efeito e de suas relações é o problema endereçado pelas reflexões filosóficas sobre a causalidade. A racionalidade científica é a mais confiável ferramenta cognitiva para o estabelecimento da causalidade, de modo que os modelos de causalidade científica são metateorias, que, por um lado, são formadas a partir dos padrões de explicações causais das ciências e que, por outro, enquadram as próprias teorias científicas. A reflexão deste trabalho parte do questionamento de como os princípios do modelo de causalidade mecânica e a epistemologia verificacionista das ciências modernas e contemporâneas, de matriz nas ciências físicas, influenciaram no desenvolvimento epistemológico do evolucionismo, como esses princípios exerceram essa influência e em que medida essa influência repercutiu nos fundamentos de validade e efetividade das explicações evolucionistas. O recorte temporal contempla a evolução dos conceitos evolucionistas desde a publicação da Origem das espécies, por Charles Darwin, em 1859, até a decisiva fase inicial da Síntese Evolutiva Moderna, até por volta de 1940, com foco nas contribuições de Ronald Fisher, Sewall Wright, John Haldane e Theodosius Dobzhansky. A linha reflexiva consiste em uma análise lógico-conceitual, de base historiográfica, do desenvolvimento epistemológico dos principais conceitos evolucionistas: ancestralidade comum, evolução ao longo do tempo, variação populacional, hereditariedade, seleção natural e adaptação. A fundamentação dos conceitos evolucionistas assenta-se sobre diferentes bases racionalistas e empiristas, logo a teoria não pode ser validada como um monolito conceitual homogêneo. Ancestralidade comum e evolução, em ambas as vias (anagênese e cladogênese), recorrem, para suas validações, à arborização da diversidade da vida, por meio das representações imagéticas da filogenia. Variação populacional e hereditariedade desfrutam de estratégias de demonstração e testabilidade muito próximas das utilizadas pelas ciências físicas, podendo recorrer à matematização dos fenômenos, à sistematização com modelos mecanicistas e à experimentação para a indução, a verificação e a refutação de regularidades. Seleção natural e adaptação, por sua vez, que, em Darwin, conformavam-se como princípios normativos deduzidos, por analogia, a partir de observações de pecuaristas e horticultores, complementados por conceitos da Economia, ganharam, com a Síntese, robustos arcabouços da estatística de populações e fundamentação lógica em um modelo de causalidade probabilística. As reflexões sobre o desenvolvimento epistemológico do evolucionismo permitem, entre outras conclusões, entender que seus conceitos possuem diferentes valores cognitivos, que as conclusões por eles permitidas possuem diferentes alcances e limites e que a solução para os problemas epistemológicos que eles continuam a enfrentar após a Síntese precisa de ser buscada por diferentes caminhos intelectuais.