A LUZ DAS VISÕES: HILDEGARDA DE BINGEN E A RECONSTRUÇÃO DO SAGRADO FEMININO
Hildegarda de Bingen; antropologia teológica; feminino sagrado; microcosmo e macrocosmo; Scivias; Liber Divinorum Operum.
Esta dissertação investiga como Hildegarda de Bingen (1098-1179) articula, em suas obras Scivias e Liber Divinorum Operum, uma antropologia teológica que posiciona o feminino como princípio ativo na interação entre o microcosmo humano e o macrocosmo divino. Partindo da análise da visão hildegardiana do homem como imago Dei – na qual corpo, alma e razão refletem a harmonia cósmica –, o estudo demonstra como a abadessa reabilita o feminino como dimensão ontológica (através de figuras como Sapientia e Caritas), propõe uma releitura das dicotomias tradicionais (espírito/matéria, passivo/ativo) no contexto da teologia medieval e elabora uma ética da complementariedade entre os gêneros, enraizada no conceito de viriditas (força vital). Com uma abordagem interdisciplinar que integra teologia, filosofia medieval e estudos de gênero, esta pesquisa demonstra como Hildegarda reinterpreta narrativas bíblicas (Eva/Maria) para afirmar a igual dignidade do feminino, conecta a salvação humana à restauração da ordem cósmica e antecipa debates contemporâneos sobre ecologia integral e espiritualidade encarnada. Conclui-se que a antropologia hildegardiana propõe um modelo relacional inovador para o século XII, no qual o feminino não apenas ocupa um papel central, mas se torna um eixo estruturante da conexão entre humano e divino. Dessa forma, sua obra desafia tanto os paradigmas teológicos medievais quanto as bases patriarcais da tradição cristã.