Entre a fala, a mãe-preta e o pretuguês: linguagem, psicanálise e constituição subjetiva em Lélia Gonzalez
Lélia Gonzalez, psicanálise lacaniana, Mãe Preta, pretuguês, fala
A pesquisa propõe uma análise do pensamento de Lélia Gonzalez a partir da linguagem, tomando a fala como eixo central da constituição subjetiva, política e cultural do sujeito racializado no contexto brasileiro. Em diálogo com a psicanálise lacaniana, o trabalho investiga como a fala opera simultaneamente como lugar de dominação e como ato de resistência, capaz de tensionar o simbólico hegemônico. Ao examinar a transmissão da linguagem pela figura da Mãe Preta, compreendida como Sujeito-Suposto-Saber, evidencia-se o papel histórico das mulheres negras na formação cultural e linguística do país, bem como as ambivalências do lugar da Outra. Nesse mesmo eixo, o trabalho propõe a análise de outras categorias referentes à mulher negra — como a mucama, a mulata e a empregada doméstica —, na medida em que essas figuras integram o registro simbólico e participam da produção de sentidos, lugares sociais e formas de subjetivação. O estudo analisa ainda os efeitos do racismo estrutural na constituição do discurso, da memória e da consciência, ressaltando os mecanismos simbólicos de exclusão e silenciamento. Por fim, o pretuguês é abordado como estratégia de resistência e invenção, revelando a presença africana no português brasileiro. Nesse sentido, a noção de ginga emerge como forma de reinscrição da experiência negra na linguagem. O trabalho articula, assim, as contribuições de Lélia Gonzalez com a psicanálise de Lacan e Miller, especialmente a partir da noção de lalíngua, evidenciando a linguagem como campo de disputa simbólica e a potência política da fala na produção de subjetividade, memória e cultura no Brasil.