A Semântica do Ethos Moderno: Um Estudo da Doutrina da Virtude de Kant
Kant; Semântica; Ética; Virtude
Esta tese de doutoramento propõe realizar uma investigação dos Primeiros princípios metafísicos da doutrina da virtude, de Immanuel Kant. Com base na proposta semântica de Zeljko Loparic, busca-se mostrar que e como ocorrem problemas relativos ao sentido e à referência dos juízos éticos. Sustenta-se que Kant pretende não apenas apresentar as condições de possibilidade de uma tal doutrina (no plano semântico), mas também estabelecer o ethos próprio da modernidade, fundando um sistema de práticas (os deveres para consigo mesmo e para com os outros) orientado por regras (o princípio material de determinação do arbítrio). O Capítulo Primeiro desempenha o papel de introdução, apresentando os principais pressupostos da leitura semântica proposta por Zeljko Loparic acerca da filosofia de Kant, com o objetivo de explicitar os elementos conceituais que orientam essa interpretação. Procura-se expor, em linhas gerais, o modo como a semântica a priori kantiana é compreendida nesse quadro interpretativo, bem como os aspectos fundamentais do chamado método combinado de análise e síntese. Busca-se, ainda, mostrar como Kant amplia progressivamente o alcance de sua semântica a priori e de que maneira o emprego desse método permite enfrentar problemas próprios do campo prático, especialmente no âmbito da ética. O Capítulo Segundo marca propriamente a incursão na doutrina da virtude kantiana, e a análise lá conduzida dar-se-á por meio do confronto entre as perspectivas de Kant e Aristóteles, com ênfase na natureza da virtude. Ao se opor ao modelo aristotélico, Kant redefine a virtude como uma força moral orientada pela razão prática, desvinculada do hábito, das inclinações afetivas e de qualquer finalidade teleológica externa ao dever. Com isso, inaugura um paradigma ético apto a compreender o ser humano moderno como agente racional e autônomo, capaz de partilhar um mundo moral estruturado por máximas universalizáveis. No Capítulo Terceiro, será realizada uma análise detalhada da doutrina elementar da ética — primeira parte da doutrina da virtude — com base em um diálogo crítico entre Kant e Adam Smith. O capítulo propõe um contraste mais abrangente entre as doutrinas da virtude de ambos, buscando delinear duas visões antagônicas da vida ética na modernidade: de um lado, a perspectiva individualista (ou liberal) de Smith; de outro, uma perspectiva intersubjetiva (ou comunitária) que pode ser atribuída a Kant. No Capítulo Quarto, o foco recai sobre o confronto entre as perspectivas de Kant e Friedrich Schiller acerca da autorrealização humana e do significado do projeto emancipatório da modernidade. A ênfase kantiana na primazia da razão sobre a sensibilidade — ainda que a virtude não se reduza ao simples autocontrole — é central para sua crítica à noção de “bela alma” defendida por Schiller, que pressupõe uma harmonia plena entre razão e sensibilidade. Nesse sentido, Kant sugere que a formação de um caráter moralmente bom envolve a autocracia da razão prática pura, na qual a razão governa soberanamente a sensibilidade. O Capítulo Quarto, portanto, analisa essa disputa filosófica, examinando como tais divergências influenciam a compreensão moderna de liberdade, cultura e temporalidade.